BEADY EYE
Different Gear, Still Speeding *****
Enfim, desfez-se o mistério: o grupo formado por Liam Gallagher e os outros integrantes contratados do Oasis deu uma resposta ao desafeto Noel de uma forma quase que brilhante. Sim, porque este disco, produzido pelo quase onipresente Steve Lillywhite, é quase tão bom quanto os melhores discos da ex-banda dos irmãos encrenqueiros.
Agora no comando musical, Liam deixa ainda mais explícito seu amor pelas sonoridades sessentistas em “The Roller” (veja aqui), por exemplo, quando usa os mesmíssimos acordes de “All You Need is Love”, dos Beatles, e a cadência rítmica de “Instant Karma”, de John Lennon, ou mesmo na bandeirosa “Beatles and Stones” (ouça). Além disto, ao apostar na intensidade monolítico/psicodélica de “Four Letter Word” (aqui) e na safadeza rock n’ roller de “Bring the Light” (clique aqui), Liam e seus companheiros exibem um bom humor até então pouco revelado.
Além de todas estas características, o grupo agora parece não ter vergonha alguma em escancarar sua “influência Beatle” em canções geniais, como “Millionaire” (aqui), “Three Ring Circus” (ouça) e na sublime balada “Kill for a Dream” (clique aqui).
O veredito é um só: discaço!
R.E.M.
Collapse Into Now ****
Todo mundo ficou muito feliz quando a banda liderada por Michael Stipe voltou a soar pesada e até mesmo agressiva no disco anterior a este, o excelente Accelerate. Agora, os caras parecem ter buscado um equilíbrio entre a urgência raivosa e o engajamento sonoro acústico que sempre pautou a carreira do grupo.
Um dos grandes méritos deste disco está no fato de que, em pouco mais de quarenta minutos, há um cortejo de canções uniformemente boas. A faixa de abertura, “Discoverer” (aqui), volta a trazer as sempre excelentes guitarras de Peter Buck em primeiro plano, mas sem a acelerada urgência rítmica dos últimos tempos, além de uma bem disfarçada participação especial de Patti Smith no coro do refrão.
“All The Best” (ouça) vem na sequência já com um andamento mais rápido e um discurso mais incisivo por parte de Stipe, que antecede a pegada mais acústica de “Überlin” (aqui), acompanhada de uma delicadeza tocante e deliberadamente provocadora, especialmente colocada para preparar nossos ouvidos para a falsamente bucólica “Oh My Heart” (clique aqui).
Se em “It Happened Today” (aqui) as vozes de Eddie Vedder e Joel Gibb (do grupo canadense Hidden Cameras) pouco influenciam o teor poeticamente panfletário da canção, a simplicidade positivista de “Every Day is Yours to Win” (ouça), “Me, Marlon Brando, Marlon Brando and I” (aqui) e “Walk It Back “ (clique aqui) funcionam como um oásis balsâmico dentro do disco, principalmente em contraste com as potências de “Mine Smell Like Honey” (aqui), “That Someone is You” (ouça) e “Alligator Aviator Autopilot Antimatter” (aqui), esta última com a participação de Peaches nos vocais e a guitarra de Lenny Kaye (da banda de Patti Smith). Estas três canções, aliás, lembram bastante a sonoridade que o grupo tinha nos independentes anos 80.
A última faixa do disco, “Blue” (aqui), além de trazer o casal Smith/Kaye, contém um soturno discurso de Stipe, como se ele buscasse dizer que os tempos difíceis ainda não passaram e que é preciso se manter atento ao que acontece ao nosso redor. E este é um resumo perfeito para a música que o REM faz nos dias atuais.
PEARL JAM
Live on Ten Legs ***
Utilizando um recurso outrora usado por Frank Zappa, o Pearl Jam resolveu ele mesmo lançar “bootlegs oficiais” de suas apresentações ao vivo, o que resultou em dezenas de discos que nem sempre primaram pela uniformidade em termos de qualidade. A coisa é um pouco diferente neste disco em questão…
Nas duas ocasiões em que optou pela revisitação de repertório alheio, a banda acertou em cheio com os ótimos resgates de “Arms Aloft” (clique aqui), da carreira solo do ex-The Clash, Joe Strummer, junto com seu grupo The Mescaleros, e da antológica “Public Image”, do PIL, a banda que John Lydon montou depois que saiu dos Sex Pistols. O vigor apresentado nestas duas homenagens mostra que o quinteto ainda consegue atear fogo em si próprio em cima do palco.
Mas é quando se volta ao seu próprio arsenal de canções que o grupo surpreende ao não demonstrar qualquer sinal de cansaço, principalmente ao apresentar “carros de batalha” mais que manjados, como “Jeremy” (ouça), “Alive” (aqui) e, em menor escala, “Animal” (clique aqui). Ajuda também o fato de os caras colocarem boas sacadas, como a inclusão de canções menos conhecidas, como “The Fixer” (ouça) e “World Wide Suicide” (aqui).
Não é um disco que fará diferença na discografia do grupo, mas para quem nunca ouviu/viu os caras ao vivo, é uma boa introdução.
RADIOHEAD
The King of Limbs ****
Um pouco distante da sonoridade exibida no disco In Rainbows, este álbum mostra que a banda vem intensificando ainda mais uma tendência quase monocromática no panorama geral de seus trabalhos, um processo iniciado a partir de Kid A.
Logo de cara, a aparentemente confusa levada rítmica em “Bloom” (ouça) causa certo desconforto, como se algo estivesse errado na gravação, mas logo a canção desabrocha como uma orquídea bela e carnívora, envolvendo o ouvinte em um universo esquisitamente melancólico. Na sequência, chega a ser engraçado ouvir Thom Yorke fazendo uma imitação – intencional ou não, não se sabe – de Bono na interessante “Morning Mr. Magpie” (clique aqui). Suas vocalizações em falsete na surpreendente cadência mais acelerada de “Little by Little” adquirem contornos dramáticos mais que conhecidos para quem acompanha a discografia da banda, mas a canção em si permanece inteligentemente focada na estranha harmonia, construindo uma ponte coerente com a complexidade rítmica da canção seguinte, “Feral” (aqui), esta sim um típico exercício de experimentalismo no campo dos efeitos de delay e ecos em geral.
A polêmica a respeito da dança ridícula que Yorke apresentou no clipe de “Lotus Flower” (assista) acabou tirando a atenção das pessoas de uma canção tão bela quanto simples, ao passo que “Codex” (ouça), por ser conduzida apenas pelo piano elétrico, sem os poderes de uma rebusca elaboração rítmica, ganha pontos no quesito “beleza melódico-harmônica”.
Nas duas últimas faixas, a banda torna ainda mais explícita suas intenções sonoras para este disco. Em “Give Up the Ghost” (aqui), um singelo violão conduz a voz bucólica de Yorke entrecortada por efeitos de vozes com delays e reverbs, enquanto que em “Separator” (clique aqui) a tradicional obscuridade sônica do grupo ganha tornos adocicados e surpreendentemente pop.
Construído sobre uma base incrivelmente sólida, The King of Limbs só não vai agradar àqueles que insistem em comparar qualquer coisa que a banda lance com o Ok Computer.
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